Nômade por Acaso: O que 3 anos de estrada me ensinaram sobre nomadismo digital.
- Yuri de Albuquerque
- 12 de fev.
- 9 min de leitura
Atualizado: 2 de jun.
Quase todo nômade digital começa sua história dizendo que sempre sonhou em conhecer o mundo. Eu não. Eu amava a cidade onde estava e, se o mundo não tivesse virado às avessas por conta da Covid, talvez eu nunca tivesse saído daquele conforto. A verdade é que a oportunidade do trabalho remoto, somada à exaustão com a forma como o país foi conduzido na pandemia, foram os fatores que me influenciaram a adotar o nomadismo digital.
Meu nome é Yuri, sou economista, ex-viajante e também um dos criadores do Horizonte Coliving, aqui em Belo Horizonte. A minha jornada até a fundação do coliving foi feita de acasos, mudanças na rota e roteiros criados por motivos ora importantes, ora fúteis.
Se você também quer dar esse passo, aqui está o relato real de como transformei uma fuga temporária em um estilo de vida, além de algumas dicas de como não falir no processo.
Pré-nomadismo digital
Tudo começou na pandemia. Eu morava em Minas Gerais, terra que me abraçou culturalmente e se tornou o meu lar, mas a incerteza daquele período me levou de volta ao meu estado de origem para ficar perto da família. Eu precisava me sentir mais seguro em meio àquele caos. Voltei com a intenção de passar apenas alguns meses e a estadia acabou se estendendo por um ano.
Conforme os meses passavam, a vontade de ir para longe crescia à medida que aquela instabilidade política ganhava mais força. Enquanto isso, eu aguardava o intervalo de três meses entre a primeira e a segunda dose da vacina. Foi então que resolvi começar a me movimentar, ainda que de maneira tímida. Fui explorar o litoral do Ceará, pulando de praia em praia, fui me isolando por um mês em cada lugar. Ali, trabalhando de forma remota e pertinho do mar, comecei a me interessar de verdade por aquele estilo de vida em movimento.
Foi nessa época que comecei a consumir mais conteúdo sobre o nomadismo digital. Ouvia o podcast da Nati Dalpiaz, da Psico Prô Mundo, espaço onde faço terapia até hoje. Em um dos episódios ela entrevistou o Leandro Mariani e logo comprei seu curso sobre viver viajando.
O Leandro explicava que era preciso fugir das conversões tradicionais, do IOF alto e do spread bancário abusivo dos bancos brasileiros. Fazia todo sentido, afinal, eu economizaria facilmente de 5% a 10% do dinheiro gasto fora. Minha cabeça de economista sintetizou a primeira lição de forma clara: quem converte, se diverte por mais tempo. Só não converte quem volta pra casa depois de 2 semanas ou quem ganha em moeda valorizada. Para quem recebe em real e quer seguir na estrada, o planejamento financeiro é vital. Caso contrário, a experiência acaba mais cedo e é hora de voltar com o cartão de crédito estourado.

Ele também ensinava uma regra logística de ouro: compre sempre apenas a ida, vá do ponto A para o B, depois para o C. Comprar ida e volta dobrava o custo e engessava o roteiro. Aqui aconteceu o primeiro embate entre o turista que eu era e o viajante que eu viria a ser. Eu ouvi tudo isso, achei genial, e o que eu fiz? Comprei uma passagem de ida e volta para o Chile. O turista ganhou porque a minha ideia não era adotar o estilo de vida nômade. Eu apenas queria passar dois meses fora do Brasil e voltar pra casa.
A matemática da estadia de longo prazo
Dois meses se passaram no Chile e a ideia de voltar parecia errada. Lembrei dos ensinamentos do curso, rasguei o plano original e mudei a passagem. A vitória do segundo embate foi do viajante que se formava dentro de mim e eu fui para a Argentina apenas com passagem de ida.
Mesmo assim, meu plano era ficar apenas um mês em Buenos Aires e então a aventura estaria finalmente concluída. Para um turista comum, um mês é uma eternidade. Para um nômade, é o começo da estabilidade. E foi lá que entendi um dos principais pontos que me ajudaram a viabilizar esse estilo de vida por 3 anos: a economia da estadia de longo prazo.
Muita gente acha que viajar é caro porque calcula o custo baseado na diária de hotel ou na estadia de curto prazo em um Airbnb. O problema é a alta rotatividade. Quando você coloca 4 semanas ou mais nas plataformas de reserva, é comum receber descontos que derrubam os preços de 30 a 50%. Eu percebi que passar um mês inteiro no mesmo lugar não é apenas culturalmente mais rico, é financeiramente inteligente.
A conta é simples: a viagem vai ser mais cara do que o aluguel fixo de um contrato anual? Provavelmente, mas é consideravelmente mais barata do que pagar 30 diárias avulsas de hotel. E se você tem uma casa parada no Brasil enquanto viaja, você gastará o dobro. Entregar a casa ou alugá-la temporariamente ajudará a cobrir grande parte da sua estadia.
Entender isso transformou meu "um mês em Buenos Aires" em oito meses de Argentina. Fiquei três meses em Buenos Aires, passei algumas semanas no Uruguai e voltei a Buenos Aires por mais um mês. Com o custo de vida já controlado, pude seguir para um novo destino na Argentina que me despertava muita curiosidade.
Liberdade para enraizar
Movido puramente por gostar de vinho, pensei: "Vou para Mendoza". Fui para ficar um mês. Fiquei três.
Foi nessa cidade, que ainda não era uma rota tão explorada por brasileiros, que destravei o espanhol e vi a neve pela primeira vez. Mendoza foi a cidade em que mais pude viver a vida local e isso só aconteceu porque eu decidi desistir de ir a outros destinos que todos os viajantes diziam que eu deveria ir. Lá, a vida aconteceu de verdade. Logo na primeira semana fui acolhido por um grupo que vinha de Buenos Aires. Nos conhecemos em um Free Walking Tour. Aliás, é uma ótima forma de conhecer pessoas, além de permitir explorar uma cidade nova por meio de uma excelente perspectiva: conhecendo-a a pé.

Cheguei a Mendoza na mesma semana que esse grupo. Elas foram para fazer uma parte da residência em um hospital local, eu fui para beber vinho. Por meio delas eu pude conhecer e participar da cultura argentina. Fui incluído em quase tudo o que faziam: noites de comidas regionais, leituras de poesia em casa, resenhas na casa de amigos, idas a bares, festas e visitas a vinícolas fora da rota turística. Foi por essas amizades e por essa experiência imersiva que eu decidi que apenas um mês não era o bastante. Eu ficaria 2 meses e iria passar um mês em Salta. Porém logo vi que também não era suficiente. Decidi que ficaria 3 meses, o mesmo período que elas ficariam em Mendoza. Nessa cidade eu fiz amizades reais, daquelas que lembramos por toda a vida e que merecem ser nutridas. Quando fui embora da Argentina, foram elas que me levaram para o aeroporto. Quando a saudade bate, nos ligamos do nada apenas para saber como anda a vida.
Essa é a beleza de viajar sem pressa: você permite que as pessoas mudem o seu cronograma. Se eu tivesse um roteiro engessado de 5 dias (ou mesmo de um mês), nunca teria vivido isso. Por outro lado, também aprendi que para usufruir da liberdade de forma saudável, eu necessitaria de algumas âncoras. Manter minha terapia online foi uma delas. Viajar sozinho dá medo, sim. Dá solidão. E saber pedir ajuda ou ter um profissional para conversar ajuda a manter a cabeça no lugar.
A necessidade de voltar
Eu estava pronto para continuar subindo o mapa. Pensava em ir pra Salta e por pouco não comprei passagens para o Peru. A inércia do movimento estava me levando, mas uma notícia me fez desistir de qualquer plano: Milton Nascimento anunciava seu último show. No Mineirão.

Para mim, o Clube da Esquina não é apenas um álbum. É um pilar da minha vida. Na faculdade, vivi em uma república que levava o nome do disco. Aquele movimento musical representa a amizade, o encontro, tudo o que eu mais valorizava. Cancelei a viagem pro Peru, comprei o ingresso e marquei a volta. Voltei ao Brasil e passei dois meses intensos no Rio de Janeiro que mudaram minha percepção da cidade. Tenho certeza de que um dia ainda irei abrir um coliving no Rio.
Finalmente cheguei a BH. Reencontrar minha casa e meus amigos foi um choque de pertencimento. Eu não me sentia tão em casa nem no Ceará, nem em Mendoza, nem em nenhum outro lugar. Voltar não era fracassar, era parte da viagem.
Ano sabático e a vida em comunidade

Antes de chegar em Minas, eu tinha tido uma crise de ansiedade que me levou a pensar que eu precisava mudar meu caminho profissional. Eu não estava feliz profissionalmente e depois de algum tempo em BH resolvi pedir demissão. Queria criar algo novo, ligado à cultura, mas ainda não sabia o quê.
Durante os meses anteriores eu tinha entendido que uma das principais virtudes de se viajar sozinho era o potencial que isso tinha de catalisar processos de autoconhecimento. Assim, fui me conhecendo melhor. Ter a mim mesmo como única companhia não era mais tão desconfortável. Eu saía pra jantar sozinho e pensava na vida. Aqui eu tive novamente uma história diferente da maioria dos nômades, que costumam dizer que as viagens os tornam pessoas completamente diferentes. Eu, por outro lado, me tornei cada vez mais eu mesmo. Então, para entender o que de fato buscava, eu sabia que precisava me perder ainda mais para, enfim, me encontrar.
Com as economias que fiz na Argentina devido à moeda desvalorizada, parti para um ano sabático na Europa. Foram 10 países e 3 voluntariados.
Na Alemanha, vivi o ápice da experiência comunitária. Trabalhei por um mês no Sommerwerft, um festival de teatro que recebia 100 mil pessoas. Como se isso já não fosse uma baita experiência para uma pessoa que trabalhava com finanças, ainda tive a possibilidade de morar onde os membros da companhia de teatro e suas famílias viviam. Era uma área afastada do centro de Frankfurt, parecia uma zona industrial. Lá eles viviam em comunidade, eram mais de 30 pessoas distribuídas entre pequenas casas e caravanas. Não bastasse isso tudo, durante o festival, mais de 300 voluntários vinham ajudar a montá-lo e 100 deles moravam juntos com a companhia de teatro. Eu era um deles.

Nunca tinha visto uma diversidade tão grande. Era gente vinda de 20 nacionalidades diferentes, todas vivendo em containers, tendas e até naqueles ônibus escolares amarelos. Qualquer espaço daquela área industrial era adaptado para receber os voluntários. Foi intenso, me senti 15 anos mais jovem, tudo parecia novo e os sentimentos estavam à flor da pele. Foi revelador, eu queria viver em comunidade. Talvez não com 100 pessoas de uma só vez, mas quem sabe 10.
Em seguida, em um voluntariado na Inglaterra, conversando com as pessoas que trabalhavam comigo, a ficha caiu ainda mais. Elas notaram que talvez eu amasse aquele caos de interações sociais porque cresci em uma casa cheia, com minha mãe, meus avós, bisavô, tias, cachorro, periquito... todos sob o mesmo teto. Cresci em comunidade. Ali entendi que meu habitat natural não era a solidão de um apartamento pequeno. Viajar sozinho te ensina a ser autossuficiente, podemos ir ao cinema ou jantar sozinhos, sem sentir desconforto. Porém, viver em comunidade te ensina a se sentir parte da humanidade.
Daí em diante viajei por vários colivings, tentando aprender com quem tinha criado esses espaços e entendendo as necessidades reais de quem vivia neles. Antes de criar o meu, ainda com medo de começar algo que até hoje quase ninguém sabe o que é, conheci a criadora do Nine Coliving, nas Ilhas Canárias. Ela me convidou para aplicar para uma bolsa da União Europeia para empreendedores e assim seria possível financiar um ou dois semestres vivendo, pesquisando e trabalhando com ela. Porém, fui barrado pela burocracia que os latino-americanos encontram por aquelas bandas (não por conta dela, aliás, super recomendo o Nine).
Voltei ao Brasil com um sentimento de fracasso, que achei já ter aprendido um ano e meio antes. Parece que não. Mas fato é que o plano de negócios estava feito. Meses depois a lição foi enfim aprendida e o Horizonte Coliving estava aberto.
Um conselho de um viajante
Se você quer viver isso, meu conselho não é "vá com medo, mas vá". Meu conselho genuíno é: vá com inteligência, tanto racional quanto emocional. Use a tecnologia a seu favor para não perder dinheiro com bancos, passagens ou hospedagem. Eu poderia indicar plataformas, mas já parei de viajar há 2 anos e tudo muda. Basta pesquisar e você vai encontrar. Este relato foca nas lições reais que a vivência me ensinou. Se você busca tutoriais operacionais sobre plataformas de viagem, a internet está repleta de guias técnicos. Afinal, para ser um bom viajante, é preciso saber pesquisar. Busque também por descontos de longa estadia, fique um mês, respire a cidade, sai mais barato do que correr por ela em uma semana. Use as diversas plataformas disponíveis para conseguir encontrar eventos multiculturais, conhecer pessoas e fugir da solidão indesejada.
E, principalmente, entenda que viajar é sobre se adaptar, sobre deixar o caminho fluir, mas também sobre reconhecer quando a solidão aperta e você precisa de gente. Seja dentro ou fora do Brasil, ter uma comunidade é o que faz a gente se sentir em casa.
A experiência do Horizonte Coliving

Se você está buscando o seu próximo destino, ou talvez o seu primeiro "ponto B" nessa jornada, o Horizonte Coliving foi criado exatamente para ser esse porto seguro. Aqui, a gente leva a sério a arte de acolher. É o lugar para viver a cultura mineira na essência, onde o "bom dia" vem acompanhado de um cafezinho fresco, passado na hora, e de uma prosa sem pressa. Queremos que você sinta aquela sensação rara de saber, logo nos primeiros dias, que chegou em casa. A estrada pode ser longa, mas a chegada tem que ser doce. Vem tomar um cafezinho com a gente, eu deixo você tocar o sino.




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