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Nômade por Acaso: O que 3 anos de estrada me ensinaram sobre nomadismo digital.

  • Foto do escritor: Yuri de Albuquerque
    Yuri de Albuquerque
  • há 1 dia
  • 8 min de leitura

Atualizado: há 11 horas

Quase todo nômade digital começa sua história dizendo que sempre sonhou em conhecer o mundo. Eu não. Eu amava onde eu estava e se o mundo não tivesse virado às avessas por conta do covid, eu talvez nunca tivesse saído do conforto de onde eu estava. A verdade é que a oportunidade do trabalho remoto com uma boa dose de ranço do desgoverno que o Brasil teve durante a pandemia foram os fatores que me influenciaram a me tornar um nômade digital.


Meu nome é Yuri, sou economista, ex-viajante e também um dos criadores do Horizonte Coliving. A minha jornada até aqui foi feita de acasos, mudanças na rota e roteiros criados por motivos ora importantes, ora tirados do mais absoluto nada.


Se você quer também dar esse passo, aqui está o relato real de como transformei uma fuga temporária em um estilo de vida (e algumas dicas de como não falir no processo).



O Ensaio: entre vacinas e litorais


Tudo começou na pandemia. Eu morava em Minas Gerais, terra que me abraçou culturalmente e virou minha casa, mas a incerteza me levou de volta para o meu estado de origem, para ficar perto da família. O plano era buscar a sensação de segurança. Voltei para ficar alguns meses e acabou se estendendo por um ano.


A vontade de ir para longe cresceu junto com a instabilidade política da época. Enquanto esperava o intervalo de três meses entre a primeira e a segunda dose da vacina, comecei um movimento tímido. Fui explorar o litoral do Ceará, pulando de praia em praia, me isolado um mês em cada lugar. Ali, trabalhando remoto e pertinho do mar, comecei a me interessar por aquele estilo de vida em movimento.


Foi nessa época que comecei a consumir conteúdo sobre o nomadismo digital. Ouvia o podcast da Nati Dalpiaz, da Psico Prô Mundo (local que faço terapia até hoje). Em um dos episódios do podcast ela entrevistou o Leandro Mariani e logo comprei seu curso sobre viver viajando.


Aqui aconteceu o primeiro choque de realidade entre o turista e o economista. O Leandro explicava que a gente tinha que fugir das conversões tradicionais, do IOF alto e do spread bancário abusivo dos bancos brasileiros. Fazia todo sentido e eu economizaria facilmente de 5% a 10% do dinheiro gasto fora. Não era dinheiro de pinga e a minha cabeça de ecomista sintetizou a primeira lição de forma clara: quem converte, se diverte. E segue se divertindo. Só não converte quem volta pra casa depois de 2 semanas ou quem ganha em moeda valorizada. Quem ganha em real e quer seguir na estrada precisa converter. Caso contrário, a viagem acaba e é hora de voltar pra casa (com o cartão de crédito estourado).


Ele também ensinava uma regra logística de ouro: "Vá do ponto A para o B, depois para o C. Compre sempre só a ida." Comprar ida e volta dobrava o custo e engessava o roteiro. Eu ouvi tudo isso, achei genial, e o que eu fiz? Comprei uma passagem de ida e volta para o Chile. A teoria era linda, mas a minha ideia ainda não era "virar nômade". Era só dar um rolê de dois meses no Chile e voltar pro Brasil.



A Matemática da Estadia de Longo Prazo


No Chile, o mosquito da estrada me picou. Dois meses se passaram e a ideia de voltar parecia errada. Lembrei dos ensinamentos do curso, rasguei o plano original e mudei a passagem. Fui para a Argentina.


Meu plano era ficar um mês em Buenos Aires e fim, a aventura estaria concluída. Para um turista comum, um mês é uma eternidade. Para um nômade, é o começo da estabilidade. E foi lá que entendi um dos principais pontos que me ajudaram a viabilizar esse estilo de vida por 3 anos: a economia da longa duração.


Muita gente acha que viajar é caro porque calcula o custo baseada na diária de hotel ou na estadia de curto-prazo em um Airbnb. O problema é a rotatividade. Quando você coloca 4 semanas ou mais nas plataformas de reserva, é comum receber descontos que derrubam o preço de 30 a 50%. Eu percebi que passar um mês inteiro no mesmo lugar não é apenas culturalmente mais rico, é financeiramente inteligente.


A conta é simples: A viagem vai ser mais cara do que o aluguel fixo de um contrato anual? Provavelmente. Mas é infinitamente mais barata do que pagar 30 diárias avulsas de hotel. E se você tem uma casa parada no Brasil enquanto viaja, você gastará o dobro. Entregar a casa ou alugá-la temporariamente ajudará a cobrir grande parte da sua estadia.


Entender isso transformou meu "mês na Argentina" em mais oito meses de estrada. Fiquei quatro meses em Buenos Aires, dei um pulo de algumas semanas no Uruguai, voltei... e com o custo de vida controlado, pude me dar ao luxo de seguir meus instintos.



Mendoza: a liberdade de criar novas raízes


Movido puramente pelo meu gosto por vinhos, pensei: "Vou para Mendoza". Fui para ficar um mês. Fiquei três.


Lá, as coisas aconteceram de verdade. Fui acolhido por um grupo de amigas que me levaram para dentro da cultura real da Argentina. Com elas, fui a um assado, comi comida caseira e visitei vinícolas fora da rota turística. Foi também nessa cidade, que ainda não era uma rota tão explorada por brasileiros, que destravei o espanhol e vi a neve pela primeira vez. Em Mendoza vivi a vida como um local.


Essa é a beleza de viajar sem pressa: você permite que as pessoas mudem o seu cronograma. Se eu tivesse um roteiro engessado de 5 dias (ou mesmo de um mês), nunca teria vivido isso. Mas também aprendi que a liberdade exige âncoras. Manter minha terapia online foi essencial. Viajar sozinho dá medo, sim. Dá solidão. E saber pedir ajuda ou ter um profissional para conversar é o que mantém a cabeça no lugar para aproveitar o resto.



O Chamado do Clube da Esquina


Eu estava pronto para continuar subindo o mapa. Pensava em ir pra Salta e quase comprei passagens para o Peru. A inércia do movimento estava me levando, mas uma notícia me fez desistir de qualquer plano: Milton Nascimento anunciou seu último show. No Mineirão.


Para mim, o Clube da Esquina não é apenas um álbum. É um pilar da minha vida. Na faculdade, ajudei a criar uma república que levava o nome do disco. Aquele movimento musical representa a amizade, o encontro, tudo o que eu valorizo. Cancelei a viagem pro Peru, comprei o ingresso e marquei a volta. Voltei ao Brasil e passei dois meses intensos no Rio de Janeiro que mudaram minha percepção da cidade, tenho certeza que um dia o Horizonte Coliving ainda estará presente no Rio.


Finalmente cheguei a BH, reencontrar minha casa e meus amigos foi um choque de pertencimento. Eu não me sentia tão "em casa" nem no Ceará, nem em Mendoza, nem em nenhum outro lugar. Voltar não era fracassar, era parte da viagem.



O Sabático e a Vida em Comunidade


Viajante em fila de aeroporto com mochilão nas costas.

Antes de chegar em Minas, eu tinha tido uma crise de ansiedade que me levou a pensar que eu precisava mudar meu caminho profissional. Eu não estava feliz profissionalmente e depois de algum tempo em BH resolvi pedir demissão. Queria criar algo novo, ligado à cultura, mas ainda não sabia o que.


Durante os meses anteriores eu tinha entendido que uma das principais virtudes de se viajar sozinho era o potencial que isso tinha de catalisar processos de autoconhecimento. Assim fui me conhecendo melhor, como Sócrates sugeria. Ter a mim mesmo como única companhia não era mais deconfortável. Eu saia pra jantar sozinho e pensava na vida. Aqui eu tive novamente uma história diferente da maioria dos nômades, que costumam dizer que as viagens os tornam pessoas completamente diferente. Eu, por outro lado, me tornei cada vez mais eu mesmo. E pra entender o que eu buscava de verdade, precisava me perder ainda mais para enfim me encontrar.


Com as economias que fiz na Argentina devido à moeda desvalorizada, parti para um ano sabático na Europa. 10 países. 3 voluntariados. Na Alemanha, vivi o ápice da experiência comunitária. Trabalhei por um mês num festival de teatro que recebia 100 mil pessoas e morei numa área com mais de 100 pessoas, vivendo em caravanas, containers, tendas e até naqueles ônibus escolares amarelos, tudo adaptado para receber voluntários de 20 nacionalidades diferentes. Foi intenso, me senti por vezes um adolescente com os sentimentos à flor da pele, mas foi revelador. Eu queria viver em comunidade. Talvez não com 100 pessoas de uma só vez, mas quem sabe 10.


Em seguida, em um voluntariado na Inglaterra, conversando com as pessoas que trabalhavam comigo, a ficha caiu ainda mais. Elas notaram que talvez eu amasse aquele caos de interações sociais porque eu cresci em casa cheia, com mãe, avós, bisavô, tias, cachorro, periquito... Ali entendi que meu habitat natural não era a solidão do apartamento alugado, mas a comunidade. Viajar sozinho te ensina a ser autossuficiente (ir ao cinema só, jantar só), mas viver em comunidade te ensina a ser humano.


Daí em diante viajei por vários colivings, tentando aprender com quem tinha criado esses espaços e entendendo as necessidades reais de quem vivia neles. Antes de criar o meu, ainda com medo de começar algo que até hoje quase ninguém sabe o que é, conheci a dona do Nine Coliving, um coliving espanhol nas ilhas canárias. Ela me convidou para aplicar para uma bolsa da União Europeia para empreendedores e assim seria possível financiar um semestre vivendo, pesquisando e trabalhando com ela, mas fui barrado pela burocracia que os latino-americanos encontram por aquelas bandas (não por conta dela, aliás, super recomendo).


Voltei ao Brasil com um sentimento de fracasso, que achei já ter aprendido um ano e meio antes. Parece que não. Mas fato é que o plano de negócios estava feito. Meses depois a lição foi enfim aprendida e o Horizonte Coliving estava aberto.



Um Conselho de Ex-Viajante


Se você quer viver isso, meu conselho não é "vá na sorte" ou "vá com medo, mas vá". Meu conselho genuíno é vá com inteligência (racional e emocional). Use a tecnologia a seu favor para não perder dinheiro com bancos, passagens ou hospedagem. Eu poderia indicar plataformas, mas já parei de viajar há 2 anos e tudo muda. Basta pesquisar e você vai encontrar. Esse texto é para te dar dicas preguiçosas. Se você quiser saber realmente o que fazer, ta cheio de conteúdo completo por aí. Para ser um bom viajante, é preciso saber pesquisar. Busque também por descontos de longa estadia, fique um mês, respire a cidade, sai mais barato do que correr por ela em uma semana. Use as diversas plataformas disponíveis para conseguir encontrar eventos multiculturais, conhecer pessoas e fugir da solidão indesejada.


E, principalmente, entenda que viajar é sobre se adaptar, sobre deixar o caminho fluir, mas também sobre reconhecer quando a solidão aperta e você precisa de gente. Seja dentro ou fora do Brasil, ter uma comunidade é o que faz a gente se sentir em casa, não importa onde o GPS diga que você está.



Vem Viver a Experiência Horizonte Coliving!


Se você está buscando o seu próximo destino, ou talvez o seu primeiro "ponto B" nessa jornada, o Horizonte Coliving foi criado exatamente para ser esse porto seguro. Aqui, a gente leva a sério a arte de acolher. É o lugar para viver a cultura mineira na essência, onde o "bom dia" vem acompanhado de um cafezinho fresco, passado na hora, e de uma prosa sem pressa. Queremos que você sinta aquela sensação rara de saber, logo nos primeiros dias, que chegou em casa. A estrada pode ser longa, mas a chegada tem que ser doce. Vem tomar um cafezinho com a gente, eu deixo você tocar o sino.

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